Filmes e Seriados

Análise do filme: Náufrago (2000)

Será que o filme Náufrago vem nos ensinar que ao ficar ilhado uma bola pode ser nossa melhor amiga? Será também que o filme nos mostra como é a relação do homem ao encarar a passagem do tempo? Um bipe, um relógio, uma dor de dente e a solidão. O que aprendi com essa história e posso te adiantar é que, estar sozinho numa ilha pode ser mais comum do que pensamos. E Wilson, sem dúvidas é uma importante parte da história.

Tom Hanks e seu melhor amigo Wilson (cena do filme)

Logo nas primeiras cenas, um discurso de Chuck (Tom Hanks) sobre a passagem do tempo nos dá uma direção do tema central do filme. 

‘’O tempo nos controla sem piedade. Não liga se estamos doentes, com fome, com sede… se somos russos, americanos ou seres de marte. É como fogo: pode nos destruir ou nos aquecer. Todo escritório do FedEx tem relógio, ele nos salva ou nos mata. Nunca o ignoramos. E nunca, jamais nos permitimos o pecado de perdermos a noção do tempo’’ 

Chuck Noland

Participando de uma Ceia na noite de Natal com sua noiva Kelly (Helen Hunt) e incomodado com uma dor de dente ao passo em que seu o bipe toca, convocando Chuck para o trabalho. Seguindo para o avião naquela mesma noite, Chuck carrega no bolso o presente recém ganhado, um relógio com a foto de sua noiva. Tudo isso fará mais sentido se percebermos que o filme trata de um homem que foi tomado pela rotina e não se deu conta da passagem do tempo, mas o chamado da empresa dessa vez virá como um lindo presente de Natal, Chuck está prestes a encarar a percepção da passagem do tempo. No avião, analisa o relógio carinhosamente apelidado de Kelly’s Time. Vai até o banheiro e decide analisar uma ferida abrindo o curativo num dos dedos e no mesmo instante em que encara o ferimento, o avião entra em queda livre e Chuck precisa tomar uma decisão entre pegar o relógio ou o colete salva vidas (a relação disso será assunto para mais adiante). Chuck escolhe pegar o relógio, o avião se choca contra o mar e logo o personagem estará ilhado. 

Aqui vai uma breve analogia. Analisar uma ferida e imediatamente o avião entrar em queda livre, é simbolicamente encarar um machucado e logo perceber que você pode estar se colocando à prova, ou melhor, dependendo do tamanho da ferida, estará num mergulho de 747 sem piloto, e será tão drástico quanto inevitável. Falo de olhar para dentro e encarar aquele ponto que intimida. Chuck está exatamente nesse processo e vai nos contar o que aprendeu.

Ao se dar conta de que está numa ilha deserta, o bipe e o relógio são colocados um ao lado do outro, itens importantes para Chuck. 

Náufrago de si mesmo

O bipe representando seu papel de cidadão, te fazendo lembrar de que há uma vida lá fora moldada por você. Por vezes o bipe te força a sair, outras você deseja que ele te chame e o que separa uma coisa da outra é nosso segundo ponto, o tempo! Aqui representado pelo relógio. Que te lembra onde você está, no caso de Chuck, sozinho, perdido e sem ajuda. E como no discurso inicial, Chuck começa a aprender que ‘não podemos nos permitir o pecado de perder a noção da passagem do tempo’. O próprio personagem nomeia o relógio de ‘Kelly’s time’ (no tempo de Kelly), nos dando uma dica de que ao ficar ilhado e sem seu bipe por chamar, passará a viver aquele tempo junto à Kelly, encarando aquele antigo relógio que mais parece estar no passado do que no presente. 

Chuck terá de reaprender a viver e decide desbravar sua ilha, subindo até o ponto mais alto e se certificando de que não há outros seres além dos recursos básicos. Aqui começa a curiosidade de entender onde se está!

Uma jornada para dentro de si

Ao encontrar o corpo de um dos pilotos, Chuck analisa seus pertences e busca algo que lhe sirva. Como ainda está aprendendo a andar na ilha, os apertados sapatos se fazem necessários. O uniforme que seria útil não é retirado do cadáver, há uma breve cerimônia onde o colete salva vidas entra novamente em destaque, tapando o rosto do piloto e fim, o enterro acontece. Aqui podemos viajar um pouco mais, retomando o assunto relógio vs colete salva vidas, dilema enquanto o avião estava em queda livre. No enterro, o colete salva vidas é colocado no rosto do piloto como uma venda, nos remetendo a ideia de que não encarar suas próprias feridas pode ser algo que lhe pareça uma saída segura, um modo de sobrevivência que pode te acompanhar até seu enterro, Chuck teve tal oportunidade no avião, decidindo pelo relógio e mais tarde enterrando a postura de tapar seus problemas com uma venda. A reflexão de morte para renascimento, ou a famosa frase de Albert Einstein, que diz ‘A mente que se abre a uma nova ideia, jamais voltará ao seu tamanho original’. Os sapatos, o uniforme e a postura de evitar olhar para suas feridas já não cabem na vida de Chuck, que não tem muita opção a não ser continuar. Aliás, estamos falando das feridas e tal, mas qual seria a ferida de Chuck? O que ele busca entender encarando um relógio de bolso? A dor de dente tem alguma relação com tudo isso? Agora Chuck encontra uma gruta e passa a empoderar a ilha como sendo sua nova casa, até que ambos, ilha e homem, se tornem praticamente um só. Aqui, posso citar a pirâmide de Maslow como um recurso para entendermos melhor essa conquista. 

Chuck tenta escapar da ilha com um pequeno barco, é engolido pela onda e acaba sofrendo um profundo corte na coxa. A reflexão sobre o tempo cabe também sobre os desafios que nos permitimos encarar, sem esquecer de que cada cicatriz pode se tornar um eterno lembrete da sua força, da sua história, coragem e das coisas que mesmo explicando, ninguém, de fato, entenderá.

Inclusive, o que você acha sobre as coisas encontradas nas caixas trazidas pelo mar, principalmente a que tem uma asa desenhada, que Chuck decide não abrir e entregar pessoalmente. Conta para a gente nos comentários! 

A bola, o amigo e o aprendizado.

Chegou a vez dele! Como não falar de Wilson, o fiel amigo de Chuck. Uma bola encontrada numa das caixas trazidas pelas ondas, onde contém Wilson junto a uma carta escrita por algum avô com palavras ao neto, com a frase ‘A coisa mais linda do mundo é, claro, o próprio mundo’. Um belo ensinamento para quem está no processo de renascimento, mas haja criatividade para quem está ilhado, sozinho e com a mesma vista todo santo dia. 

Wilson e o fogo são criados no mesmo instante. Chuck inicia seu vínculo com a bola ao passo em que tenta fazer fogo, que até então sem sucesso. O fogo é criado e a amizade entre os dois também. Quanto mais alimenta a grande fogueira enquanto dança, mais verbaliza em direção à bola, sendo uma das frases ‘Vejam o que eu criei’. Podemos pensar aqui sobre o fogo e sobre a consciência ao dar vida a uma bola. Aqui, Platão diria que aquele que consegue sair da caverna, ao retornar é taxado de louco por aqueles que não se permitem duvidar da realidade, ou seja, só Chuck realmente sabe da necessidade de uma companhia..  prefiro apoiar Chuck e também encarar Wilson como um ser que possui vida. Observando o fogo, percebemos que é possível ver o espaço que ele ocupa, mas não com tanta nitidez. Os danos e as coisas boas, a dose entre destruição e o seu domínio é a consciência e a percepção de que ele existe. Ele não terá forma e não se deixará ser dominado por inteiro. Parece um tanto confuso e falando assim, parece que falo sobre o fogo e também sobre o tempo, ou da percepção dele. Ou seja, temos a noção de que existe, sabemos que não vamos dominá-lo por completo e ignorar sua existência pode ser destruidor. 

Agora a bagunça na vida de Chuck ganha outra forma, colocando em sua realidade a fantasiosa amizade de Wilson, ou seja, seu amigo se tornou uma fonte de convívio, alucinação e fé. Wilson é fruto da imaginação e se tornou real. 

Uma metáfora escondida no dente.

A percepção de que talvez nunca seja encontrado intensifica a dor de dente de Chuck, que mantém o bipe e o relógio dentro da gruta, ambos em seus devidos lugares. Mas qual a relação entre a dor de dente que nos acompanha desde as primeiras cenas e só agora Chuck decide de fato extrair. Resultado de um trabalho mal feito pelo seu dentista gerou tal infecção. Mas uma simples dor de dente, sem propósito, seria estranho num filme tão bem feito. 

Curiosamente, Chuck comenta que o nome do seu dentista é Spaulding, e aqui vai tal reflexão. Spaulding é uma referência para esterilizar itens, ou seja, uma simples atitude de limpeza no passado evitaria tal infecção. Agora Chuck se vê forçado, literalmente, a arrancar o mal pela raiz, e com um patins e uma pedra, o dente leva um golpe certeiro. Chuck desmaia e ocorre um looping no tempo, jogando nossa história quatro anos para frente.

Náufrago ou Nativo?

Agora Chuck se veste, anda, come e gesticula como um nativo da própria ilha. Sua aparência é resultado por tantos anos vivendo em solidão, barba e cabelo por fazer, a expressão neutra nos remete a falta de sentimentos, seu lado emocional parece ter perdido espaço já há algum tempo, até que num dia de sol algo chama a atenção, uma peça de banheiro químico trazida pelo mar faz mais barulho na consciência de Chuck do que na própria cena. Ao ler algo na peça, se lembra da escrita, da vida fora da ilha, do mundo que continua acontecendo diante dele, ali, do outro lado do mar. A partir desse ponto, começa o desejo e o estudo para escapar da ilha e já tendo em mãos alguns dados levantados durante os anos que se passaram em solidão, como as estações do ano, direção dos ventos e a contagem dos meses, facilitando a percepção de passado, presente e futuro. Basta um barco e a espera pelas condições ideais. Enfim, observar a passagem do tempo acabou se transformando na sua principal ferramenta, como clareza dos próximos passos. Chuck é forçado a subir no topo mais alto da ilha para pegar um pedaço de corda, essa mesma corda, segundo ele, seria usada para seu próprio enforcamento, desistindo da iniciativa mais tarde. Importante ressaltar que lidamos com diversos problemas pela mesma perspectiva, ou seja, o ponto que seria apontado como ideal para tirar a própria vida, hoje é fonte da ferramenta onde se cria o caminho para libertar-se para a própria vida. Talvez, uma lição do personagem ao mostrar que do mesmo ponto onde não vemos saída, um dia se tornará fonte da nossa própria força, ou seja, a corda que colocaria um fim em tudo, hoje é parte do seu barco para a liberdade, bonito né?!  

O conflito de Chuck ganha nova proporção entre a consciência de conversar com uma bola ao passo em que mantém viva a ideia de que Wilson é seu fiel companheiro. O desejo de encarar a maré e a sociedade em contraponto com a fé e os valores que Wilson representa dentro da ilha. Aqui, outra grande lição da história, o conflito entre dois pontos gerando maiores confusões. Chuck faz os cálculos, constrói seu barco, espera o vento ideal e deseja a liberdade como se pudesse escutar seu bipe num chamado para a sociedade. Ao mesmo tempo em que alimenta Wilson vivo e apesar de manter uma rotina pela sobrevivência, a vida acontece. A soma de ambos fazem de Chuck um ser mais confuso, forte e corajoso. A mesma maré que forçou nosso herói a se isolar do mundo, agora gera impulso para trazê-lo de volta à vida. Enfim, Chuck encarou sua ferida ao questionar o que lhe restaria caso enterrasse seu lado profissional, gerando aumento da sua dependência emocional por Kelly. Passando a buscar forças no passado e no futuro até que o tempo acaba por controlar Chuck novamente, só que dessa vez dentro da ilha. Agora o desejo de movimento acende em Chuck a vontade de sair da ilha, conseguindo lidar com mais clareza sobre a importância de Wilson e o desejo de voltar para a sociedade.

O retorno do Náufrago

Perdido no mar até ser acordado por uma baleia e logo se dá conta de Wilson boiando cada vez mais longe do barco e sem hesitar, pula na água e a angústia entre salvar a própria vida ou morrer abraçado à Wilson, Chuck é forçado a nadar de volta para o barco e ali vai encarar o luto pela morte de Wilson. Aqui podemos sugerir que o luto talvez te coloque numa ilha tão pequena e instável que mal consiga ficar em pé, mas confie no filme como um todo e observe a passagem do tempo como sendo também seu aliado.

Já no avião voltando para casa, Chuck conversa sobre sua ausência no falecimento da esposa do seu melhor amigo. Aqui o filme nos dá uma dica de que o luto por parte do seu amigo, foi ou está sendo encarado de forma solitária, ou seja, como se cada um estivesse vivendo em sua ilha, estudando a passagem do tempo, os ventos, as marés, os pontos fortes e fracos, criando Wilsons e fazendo contas. De certa forma, estamos todos ilhados em nossas próprias aventuras e aprendizados. 

O restante do filme mostra Chuck lidando com Kelly e sua nova família e apesar de ainda demonstrar seu amor pela ex, em momento algum Chuck se mostra surpreso, indefeso, vulnerável. Ficar na ilha pelo tempo que acreditou ser necessário até encarar os fatos, fez dele uma pessoa disposta a sentir a vida novamente. Uma última dica de Chuck para lidar com tal situação é confiar no tempo e continuar respirando. 

Agora, um bônus para encerrar o textão. 

Há uma multidão do lado de fora da sala enquanto Chuck se encontra com o atual marido de Kelly. A agitada e silenciosa multidão posicionada atrás de Chuck nos deixa viajar um pouco mais. Imaginemos que cada pessoa da multidão representa um dia na ilha, mais de quatro anos de uma silenciosa batalha sendo representada por pessoas. A cada dia na ilha um novo aprendizado, uma vitória, uma derrota, um dia sem grandes mudanças. Todos aqueles dias estarão ali, somados e resultando num só ser, você. Caso você esteja na ilha, continue respirando, confie no tempo, estude as marés e as estações. Caso não esteja, relembre da multidão, da sua história, da passagem do tempo. Se acaso estiver visitando sua ilha em alguns períodos do dia, busque aproveitar o que ela tem pra ensinar, Chuck Noland nos ensina que isso nos torna fortes e conscientes do presente. 

E aí, o que achou do texto?! A proposta aqui é provocar a imaginação, gerando possibilidades de estrutura. Um personagem que consegue controlar o tempo, ou possui um bipe hipnotizante… enfim, cada um sabe, ou não, pra onde a criatividade vai.